segunda-feira, 2 de junho de 2014

De como mais uma vez cheguei ao Rio Araguaia e o atravessei do Tocantins para o Pará.

São Geraldo do Araguaia

O dia hoje, dois de junho do nosso senhor de 2014, foi cedo iniciado. Café só às seis e trinta. Quinze para as seis da manhã estava eu, com minha térmica em mãos, com cara de coloninho, na porta da copa do hotel, pedindo, encarecidamente, que a copeira passasse um café. Generosamente e prontamente fui atendido.
O gringo pediu né!!? E ele gosta mais escuro e mais amargoso... Aqui querido, prova pra ver se está bom assim... Sim, me chamam de querido aqui. Mas não é aquele querido falso tipo queriiiido. Coisa bem corriqueira.
Os homens me tratam por chefe, chefinho, meu patrão, meu patrãozinho e, “dão um grau” nas coisas. Deixa dar um grau nessa mesa antes de você sentar; deixa dar um grau nesse banco; vou pedir pra moça dar um grau no seu quarto... E claro, sou Senhor para todos, do mais novo ao mais velho. Mal lembro a última vez em que alguém se referiu a mim como você. Tu então, sem chance.
Uma térmica de café no bucho, umas dez idas ao banheiro e, mochilas nas costas, chapéu, óculos. Uma pernada de umas seis quadras até a rodoviária. Saída de Araguaína com destino a São Geraldo do Araguaia, no Pará. Três horas de viagem com um microônibus, sem banheiro. Estrada esburacada, aquele ônibus sacudia, tremia, acelerava, freava de vereda, desviava buraco, acertava buraco... Aquela térmica de café começou descer, e começou a encher a bexiga, e aquela bexiga querendo derramar... Geralmente, quando é trajeto longo, as vans e microônibus tem pontos de apoio no caminho, onde eles param para os passageiros fazerem uso de banheiro, pegar água. Dessa vez nada. E eu ali, fazendo de todo o possível para não pensar em mijar. Olhava a paisagem e pensava, olha que bonito, paisagem, árvore... árvore é legal para escorar e dar um mijão... Não mexia nem um músculo. Pensa, paisagem, paisagem bonita, olha aquela serra no horizonte... E aquele infinito de estrada, aquela imensidão de nada. Ônibus cheio. Outros passageiros começaram a expressar sua necessidade de alívio, pensei bem, pelo menos não sou o único... E o motorista nem aí. Não, só em Xambioá.
Quando finalmente vi o Araguaia, já uns dois quilômetros antes de nele chegar, foi me dando um alívio nos pensamentos, mas o negócio tava feio. Quando parou no porto desci e fui meio vesgo para o lado dos banheiros, cheguei perto já fazendo passinhos curtos pra segurar... Banheiros trancados. Tinha que pegar a chave num quiosque, me disse uma senhora. O porto cheio de caminhão e gente. Vamos lá. Já suando de precisão, cheguei no quiosque, pedi a chave meio espavorido... “Tém não que a faxineira ta limpano...”
Não tinha mais como, dei uma chegadinha atrás de um caminhão que tava do lado do quiosque e foi ali, no meio da rua mesmo, os outros passageiros sei o que fizeram não. Ou era ali, ou nas calças. Mas gringo pode. Foi daquelas de sair sorrindo de alívio.
Xambioá/TO vista de São Geraldo/PA
Balsa, caminhão, travessia. Aquela balsa estava literalmente fervendo, não dava nem para sentar nos bancos, de ferro, ou se escorar nos corrimões de segurança, de ferro. Sabe quando dá para ver o calor emanando do ferro? Pois é. Logo depois da travessia já avistei um hotel na beira da estrada que parecia mais ajeitadinho e pedi para parar o busão, desci e fui me instalar. O hotel fica no porto, a uns dois quilômetros do centro.
Duas da tarde, mochilinha nas costas e bóra trabalhar. Perguntei no hotel sobre a secretaria de cultura e ninguém soube informar onde funcionava. Prefeitura, então. Informaram que era longe, então, fui até a estrada e peguei um moto-taxi, um sol de verter lágrima mesmo com óculos escuros. Cheguei na prefeitura, passei por três setores para descobrir onde ficava a Secretaria municipal de cultura e, fui descobrir que ela funcionava no prédio do conselho tutelar, bem em frente ao hotel. Era só atravessar a rua. Bóra voltar lá então, atacar moto-taxi na rua e voltar. Ainda bem que é craudiado de motoqueiro por cá. Tem lugar que até a moto é padronizada, de cor amarela. E, em praticamente todas, os taxistas usam colete laranja. Viu um colete laranja pode levantar a mão que ele para.
Cheguei no conselho tutelar, tudo fechado, ninguém na recepção. Tinha três portas. Bati na primeira, nada. Bati na segunda, nada. Bati na terceira e alguém disse entre. Estava lá, o secretário de cultura, sozinho, numa sala só com climatizador, uma escrivaninha, uma estante de metal com uns papéis e duas cadeiras. Só. A secretaria toda estava ali.
Conversando com o secretário, não lembro por que, ele mencionou o município de Piçarra que fica entre São Geraldo e Eldorado dos Carajás. Fiquei encucado. Na minha imagem mental do mapa, eu só faria São Geraldo e Eldorado ao sul (sudoeste) de Marabá, o restante das cidades paraenses abrangidas ficavam, em meu pensar, ao norte de Marabá. Fui conferir no mapa e não é que tenho que fazer Piçarras... Se o Chiquinho (que é um Chicão) não tivesse mencionado, eu teria passado direto e, provavelmente só me daria conta depois que chegasse a Marabá... e é um bom trecho que teria que voltar... Mas graças ao secretário, com nome de meu santo de devoção, fui salvo de tal transtorno.
Amanhã vai ser dia de produzir e escavar fotografias. Secretaria sequer computador tinha... Assessoria de comunicação, não tem. Um dos locais a visitar será a sede do Parque Nacional da Serra das Andorinhas que fica aqui no centro. Soube que no parque há muitas cavernas e, uma delas é chamada de Igreja de Pedra. Há uma tradição de devoção ao Divino que acontece lá. Na semana de pentecostes os romeiros sobem a serra e ficam acampados nas cavernas durante nove dias e nove noites, fazendo penitências e rezando na igreja de pedra. Essa, infelizmente, não vou poder visitar pessoalmente, pois fica longinho da cidade. Lugares de Guerrilha do Araguaia a serra já teve nome de Serra dos Martírios. Mas depois os militares mudaram para Serra das Andorinhas, que era mais bonitinho que algo que lembrava a chacina dos guerrilheiros naqueles arredores.
Será que tem visagem que ronda aquelas cavernas? Fantasma de defunto morto talvez? Só mesmo em grupo grande pra subir lá e dormir nove noites naquelas cavernas, sozinho, de noite, sei se ia lá não...
Além disso, olha só o que tenho que passar, vou ter que procurar o gerente do banco do Brasil, eu que amo Bancos a ponto de sequer conhecer o gerente da minha conta, para conseguir fotos de uma das festas mais tradicionais da cidade: A festa do Cari, que é um peixe semelhante ao nosso cascudo, que eles tem por hábito assar inteiro, na brasa, inclusive com os intestinos, que é uma bolinha de nada e, sem nenhum tempero. Quando assado, a pele quebra, como uma casca. O peixe é aberto, os intestinos tirados e fica só uma carne extremamente branca com as vértebras e sem espinhos. E o tempero não faz nenhuma falta. Durante a festa, todos os pratos são preparados com a carne do referido peixe e, só o gerente do Banco, que é um dos organizadores, tem registros fotográficos. Pelo menos foi assim que mo disseram.
Final da tarde, voltando para o hotel, fiz uma via sacra pelas bodeguinhas do cais em busca de café. Estava seco por um. Nada. Só coisas geladas. Na última bodega que passei tinha pó de café para vender. Comprei um pacotinho pequeno, já preparando minha cara de coloninho para pedir que passassem uma térmica para mim no hotel. Cheguei, pedi se podiam coar o café. Com o sim imediato, coloquei o pacotinho de café em cima do balcão e subi pegar a térmica. Quando voltei a recepcionista estava com o pacotinho de café na mão, me olhou com cara de espanto e disse “ mas moço, você foi comprar café?!!! Era só pedir que eu fazia com café daqui...” Enfim, ela queria que eu pegasse o café de volta... Tive que dar uma boa justificativa dizendo que bebia muuuito café e que ela conseguiria gastar todo pacote até amanhã, pois percebi que ela estava ofendida com o fato de eu ter comprado um pacote de café, ainda mais que eu ficaria apenas um dia. E oferecer café, por cá, é mais comum que oferecer água. Se bem que nessas histórias de oferecer água também já fico atento, pois há aqueles que se ofendem quando você recusa um copo d’água... Quando oferecem já alcançando o copo, ou trazem uma jarra com um copo num prato, não recuse em hipótese alguma. Se não quiseres fazer um inimigo, pegue, agradeça e beba.
Além de passar o café, a recepcionista traz a térmica até o quarto. Já é a terceira em três horas. Quando esvazia, levo a térmica e ela devolve cheia. Gringo pode.

Ao final da tarde caminhei até o centro que antes só havia visto na passagem de moto e pelo que vi não podia ter feito melhor escolha do meu hotel de posto de combustível. Meu quarto é, supostamente, de solteiro. Tem três camas de solteiro, com um bom espaço entre as camas e mais um pedação que da para fazer um baile, tem até chuveiro quente e, é absolutamente silencioso. 
Lá fora os caminhões continuam indo e vindo, atravessando as fronteiras dos estados. Tem uns novecentos estacionados no posto. Meu quarto fica nos fundos, com janela para o mato. Só escuto os caminhões quando desço. A estrada que passa do lado do hotel, a da saída da balsa, tem uns trezentos metros de estrada de chão, imagino que as chuvas e os caminhões tenham arrancado o asfalto. É poeira que não acaba mais. Fina, grudenta, que entra pelos poros, se mistura ao suor e vira barro. À tarde passou um caminhão pipa, jogando água na poeira. No tempo de uma hora, a poeira virou lama e virou poeira de novo. 
Quando quiserem fazer turismo em São Geraldo do Araguaia, venham, a temporada está começando, Araguaia ta baixando, as ilhas começando aparecer, os bancos de areia se formando. Deixo tudo para vocês, pois como estou à trabalho não posso me entregar a esses prazeres supérfluos como caminhar pela beira do Araguaia num final de tarde de início de verão...