quarta-feira, 16 de abril de 2014

Igarapé do Meio.

Acordei pesado hoje, uma lerdeza de movimentar, de acordar e em gente se tornar, tudo dificultoso. Mas depois do banho, respirei fundo, falei de mim para mim "vai lá Marcos Batista Schuh"... lá se iam para oito horas, fui. Descer toda avenida abarrotada de gente, de motos, de carros. Na rua não dá para caminhar e lotada. Na calçada não da para caminhar porque fica tomada por mercadorias das lojas e bancadas de vendedores ambulantes. Roupas, calçados, camarão seco, roupas, legumes, térmicas de caldo, frutas, café com bolo, made in china... em cada lado da avenida, um riacho constante de esgoto a céu aberto (água de pia e de chuveiro) No mínimo labirinto que resta para caminhar as pessoas se espremem e se arrastam. 
Um calor sufocante, úmido, grudento. Cheguei a BR, onde fica o ponto de "taxi" para qualquer lugar que cê queira. Antes de atravessar a segunda faixa da BR já gritei:
 Igarapé do Meio
Do outro lado alguém já gritou
Bóra que completou!!!
Fui.
Dá uns vinte minutos daqui, mas do jeito que estão as estradas, leva quarenta. A chuva está simplesmente levando o asfalto. Pedaços inteiros de estrada caindo. A água leva a areia e o asfalto desaba. Enfim, cheguei em Igarapé, pedi para descer na escola, entrei e procurei a direção. Cinco minutos, explicada a situação, fui informado que o nono ano funcionava de manhã e, que os mesmos já haviam sido dispensados para o feriado.
Sugeri então, que fosse na terça de manhã...
Impossível, no dia 22 começaria um curso para professores, as aulas no município só retornariam no dia 28.
Pra quebrar as pernas
Sugeri uma turma do oitavo ano (7ª)
Só no período vespertino.
Pode ser (em pensamento: nunca me acertei com alunos da sétima série).
Duas horas então.
Certo, duas horas estarei aqui.
Tem algum tipo de projetor?
Não
Eram nem dez da manhã ainda. Voltei para a BR e peguei carro de volta para Santa Inês.
Meio dia e quarenta e cinco estava eu descendo a avenida novamente. Três quadras e dava para torcer uns dois litros de suor da camiseta, chapéu encharcado, óculos embaçando com calor e umidade....
Novamente os gritos e, vamos lá. Pedi que fosse só uma turma mas, a maioria dos alunos havia adiantado o feriado e, os que vieram foi só para receber o presentinho de páscoa que a escola distribui. A diretora, muito gentilmente juntou duas turmas para dar uma de 22 alunos.
Paguei meus pecados de língua por elogiar os alunos de cá. A diretora ficou na sala para acompanhar a palestra. Era como se eu e ela não estivéssemos ali. Completamente possuídos.Chamei meus ancestrais germânicos, nada. Invoquei espíritos e eles fugiram ao ver os 22 capetas. Mentira. Consegui contar seis que estavam prestando atenção na minha pessoa... Invoquei demônios e eles disseram "já estamos cá meu caro".
Sem figurinhas, sem fotos, só no gogó. Nem amando muito a profissão nem recebendo muito bem, faria isso todos os dias.
Falei por meia hora. Quando percebi que eu estava elevando muito a voz para ser ouvido pelos seis interessados, finalizei. Peguei lista de presença, declaração da escola, saí para a BR, parei o primeiro carro, entrei. Andamos uns dez minutos e começou cair um aguaceiro.

Quando chegamos na cidade a chuva já havia parado, mas não os rios das ruas. A avenida alagada.
Deve ser isso que chamam de inferno astral.
Fim.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Agenda de ontem e hoje: Registros.


Então, segunda feira começou assim:
Fui até a secretaria de educação, aquela, já descrita anteriormente. A oficina aconteceria naquele auditório, no alto da escada, que também serve de sala de espera. Além da sala da secretária executiva e da secretária da educação, há mais três salas onde trabalham técnicos da secretaria. Cheguei dez para as oito da manhã. Aquele frio na barriga de sempre. Será que conseguiram organizar? Será que virá algum professor? Como vou começar? O que vou fazer durante dezesseis horas? E essas coisas tolas que nos ocorrem nos pensamentos enquanto esperamos coisas de começar.
As portas que antes custaram tanto para abrir pareceram ter sensor de movimento de tão rápido que se abriram. Subi a escada. Liguei equipamento. Uma das técnicas da secretaria foi incumbida de me assessorar. Térmica de café fresco, água. Início marcado para oito horas. Oito e dez chegaram duas pessoas. Esperamos. Oito  e 20, chegaram mais 29. Comecei.
Quando vi tava começando juntar gente no fundo da sala, pessoas que estavam na parte de “sala de espera” começaram chegar mais perto, técnicos saindo das salas para ver o que estava acontecendo.
 À tarde não tem atendimento ao público na secretaria, sem gente transitando, ficaram os 31. Fiz a atividade da tarde que era: cada um contar um pouco de sua história pessoal. Sugeri começar e, como esperado, concordaram que fosse eu.  Me ative, basicamente, a apresentação de um currículo, pois sabia que assim, todos passariam a adotar o mesmo roteiro. Assim como sabia que a história profissional seria, estava apostando nisso, das memórias as menos dolorosas.
Não estabeleci tempo. Cada um falava o que queria, mas precisava falar, qualquer coisa que fosse e, a condição de prestar atenção nas histórias que estavam sendo contadas. Caras assustadas, muitos(as) dizendo que não falariam.. Todas seguiram o roteiro da história profissional e posso afirmar que com certeza foi o caminho menos doído mas não menos sacrificoso. Maioria alfabetizada(o) por “professor particular”, esses de fazenda, de palmatória e tal. Pessoas jovens, de trinta, quarenta anos. Pessoas da roça que queriam muito estudar e, com todas as forças do universo sendo-lhes contrárias, conseguiram terminar “a quarta série”, com 14, 15 anos. Depois, ainda com as forças do universo sendo contra, conseguiram fazer o fundamental.  Depois casaram. Ainda contra as forças do universo, fizeram o ensino médio. Mas todas(os) trabalhavam como professores desde a conclusão da quarta série. Hoje, a maioria tem duas graduações feitas no campus da UEMA daqui. Volta e meia alguém desandava chorar. Memórias involuntárias, coisas que mentalmente haviam jurado, dois minutos antes, que não contariam. Memórias de pais, maridos/esposas, ex-maridos/esposas. Vozes embargadas, enfim, todos falaram. Terminamos eram cinco horas.
Nisso a secretária executiva se aproximou e pediu para dar um recado. Consenti. O recado “quem puder avisar seus colegas de escola que eles não foram convidados para a oficina porque só havia trinta vagas”. Estavam ligando querendo saber porque não foram convidados para a “aula de formação” que estava acontecendo na secretaria. Confirmei que só havia oferecido 30 vagas e, continuei, falei de história, de memória, de identidade cultural, relacioneis as histórias pessoais com a história do município, da região e bla, bla, bla, bla, bla quando vi, estavam todos os técnicos, em pé, na porta das salas, escutando. Terminei 17:40 e todos ficaram sentados, me olhando com cara de “acabou?”.
Hoje cheguei oito horas. Oito e quinze comecei, tinha umas vinte e cinco pessoas, outros foram chegando, chegando, chegando, chegando... Passei a lista de presença e continuei. Quando a lista voltou, olhei, quarenta e uma pessoas. Aqueles que no dia anterior ficaram ouvindo do fundo da sala, resolveram participar hoje. Segundo eles, não foram convidados, mas eram professores, passaram por ali no dia anterior, gostaram do que ouviram e resolveram vir. Assim.
Terminei 16:40, ainda com meu público de 41 pessoas. Avaliação até 17:10. Finalizado.Teve gente que me ofereceu casa, pouso, para quando quisesse vir para a região, convidando para festa de não sei que santo. Beijos, abraços, bênçãos e tudo mais. Preenchi os certificados, imprimi, assinei, deixei para a secretária assinar e carimbar os mesmos. Mais despedidas e bênçãos de secretárias, diretoras, técnicos, senhoras do café, recepcionistas, guarda.  Cheguei quase escurando.

A entidade que baixou, subiu novamente.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Trabalho do lado de cá

Agenda pública: a quem de interesse.

Depois de três dias tentando, consegui encontrar a secretária de educação. Na primeira tentativa consegui chegar até a diretora de ensino, expliquei para ela o que era e deixei o projeto. Ela prometeu retorno até o final da tarde de segunda. Nada. O atendimento ao público é só no período da manhã e tarde serviço interno.
Na terça foi minha viagem emocionante a Alto Alegre que me tomou o dia todo. 
A Secretaria da Educação funciona em uma casa enorme. Tem um muro e, na entrada um guarda. Passando pelo guarda, na entrada da casa fica a recepção e, uma porta fechada. Você se identifica, espera e, quando a pessoa que procuras chega, te é permitido adentrar na dita porta fechada. Atrás da porta um corredor, com salas fechadas e sem identificação do que ali funciona. Na metade do corredor uma escada que leva ao primeiro andar. No topo da escada uma sala grande que é usada como auditório e sala de espera, a sala da secretária executiva cuja porta fica aberta e, a sala da secretária de educação. Sempre fechada.
Ontem fiz a segunda tentativa. Na recepção me identifiquei e pedi para falar com a diretora de ensino, me pediram para aguardar pois a mesma estava tomando café da manhã. Sim. Aqui os funcionários públicos, todos eles, tomam café da manhã no local de trabalho. Em todas as cidades. Sentei, esperei.
Uns dez minutos depois a diretora passou pela recepção, rapidinho, me viu e falou "Pode aguardar que já deixei o projeto com a secretária e ela está vendo", e se foi, sumindo por detrás da porta. Espero, espero, espero. 
Duas horas depois tomei toda calma minha e expliquei a situação para a recepcionista e esta, sumiu por detrás de uma porta para verificar o andamento da minha questão. Esperei.
Uns quinze minutos depois ela volta com o veredicto:
 A "diretora de ensino" havia saído... por porta dos fundos imagino, se é que saiu mesmo... e, que meu projeto ainda nem havia chego até a secretária de educação, ainda estava com a secretária executiva da mesma e, que eu não seria atendido naquele dia pois a secretária estava em reunião. "Tem como o senhor voltar amanhã?"
Respirei fundo, invoquei todos os anjos e santos, conjurei demônios silenciosamente. Olhei bem nos óinhos amendoados dela e só perguntei: "e vocês me deixaram duas horas esperando para me dizer isso?" Devo ter feito uma cara pavorosamente assustadora, porque o sangue todinho da muié se escapuliu. Ela ficou pálida. Amenizei, mas só um cadinho, agradeci a ela, disse que voltaria hoje e dei tchau..
Deu tempo de almoçar, banhar rapidinho, me fardar e ir caminhando para a escola onde havia agendado palestra, aqui em Santa Inês mesmo. Uma escola de bairro, toda detonada. A salinha do diretor é minúscula. Risomar o nome dele, do diretor. Bonito nome não? Junta duas coisas muito importantes para a vida.
Novamente, duas aulas da disciplina de história com uma turma de trinta alunos do nono ano. O diretor e a professora me levaram até a sala, me apresentaram e foram providenciar o projetor. A sala, apesar do piso quebrado e das paredes com infiltração era, podemos dizer, ampla. Os alunos estavam divididos em três grupos. Dois agrupamentos na frente, um do lado direito, outro do lado esquerdo, um vão no meio e, bem lá no fundo, a galera do fundão, que é sempre a galera do fundão, como em qualquer outro lugar. Agrupamentos formados por afinidade, imagino. Foi quando reparei que a maioria das cadeiras não tinha o apoio para o caderno, não tinha carteiras. Quem chegava primeiro pegava as melhores cadeiras. O restante escrevia com o caderno apoiado no colo. Enquanto a professora não chegava, comecei desfiar minha ladainha. Quando o projetor chegou, paramos uns minutos, instalamos tudinho. Enquanto isso ficou um burburinho de convesê na sala. Instalado, só falei “vamos voltar pessoal?” e o silêncio se fez. Nisso um menino da galera do fundão pegou sua cadeira e veio um pouco mais para frente, e outro também veio, depois outra, depois outra, depois outro. E, sim, todos vieram. E, foram-se as duas aulas. Se algum dia, (deus me livre) por mais absoluta falta de opções, eu me ver obrigado a entrar em uma sala de aula como professor, vou ser professor em cidade pequena por esses lados.
Fui dormir pensando em acordar por volta de seis horas. Gosto de ter um tempo para acordar direito antes de trabalhar. E não é que me perdi nas horas? Não coloquei despertador a despertar e acordei já eram 7:30. E eu fico muito, muito puto comigo mesmo quando acordo mais tarde que o planejado. Pulei da cama, vesti a primeira roupa que achei, desci correndo com minha garrafinha térmica até a sala do café, enchi, voltei correndinho, tomei um cigarro, fumei uma xícara de café enquanto enfiava caderno, caneta e tralha e tal na bolsa, banhei correndinho, me fardei e saí todo aparvalhado rumo à secretaria, ainda me xingando por acordar tarde. Devia estar com uma cara muito boa, de anjo, de ser etéreo que de sorrir levita. Cheguei passei pelo guarda, cumprimentei, cheguei na recepção... foi só dizer “bom dia” e a porta fechada se abriu no instante. Subi a escadaria, entrei na sala da secretária executiva, disse “bom dia, eu estou aqui para...” “ Ah sim Seu Marcos, o senhor aguarda só um instante que ela vai lhe atender”. Fui até a sala de espera, tinha uns vinte que chegaram antes de mim, todos esperando para falar com a secretária. Uns dez minutos depois, a secretária executiva me chamou para a sala dela, me ofereceu uma cadeira em frente a sala da porta fechada e disse, “quando saírem dois rapazes por ali, você entra”. Sentei. Nisso ouvi lá fora um dos vinte reclamando por terem me chamado primeiro e, ouvi a explicação da secretária “é a “fulana” que decide e chama o que é mais urgente”. Pensei: “opa, agora meu caso está nas urgências?!!” Ótimo.

Quando os rapazes saíram, entrei, nos apresentamos, a secretária de educação confessou não ter conseguido tempo para ler meu projeto. Expliquei para ela em poucas palavras, enfim, que é de graça e que a única responsabilidade deles é com a parte operacional. Em questão de dez minutos definimos data, local, horário, responsabilidade de cada um e eu saí. É tão simples quando se consegue conversar com a pessoa que decide as coisas. O difícil sempre é passar por todos os labirintos até chegar a pessoa certa. Os vinte da fila até fizeram cara de espanto quando me viram sair de lá tão rápido. Agendado para segunda e terça feira. Amanhã vou encarar Bela Vista do Maranhão. Essa é pertinho daqui, não periga de ficar preso lá.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Das vidas do lado de cá

Rio Pindaré
Agenda pública de ontem:
Acordo eu muito do cedinho, pois precisava ir de Santa Inês a Alto Alegre do Pindaré, dá uns 140, 150 quilômetros. Como já conhecia a cidade, sabendo que teria que me hospedar num quarto sem janela (só com uma pequena basculante no alto), chuveiro frio, cama mole, travesseiro duro, que não teria restaurante para jantar, etc, decidi que iria cedo, marcaria a palestra para a tarde do mesmo dia e, voltaria para Santa Inês. Levei só o equipamento.
De cara dei sorte, cheguei no ponto de Taxi e havia um carro já com três passageiros esperando mais um para completar a “carga”, saindo para Santa Luzia. Carro bom, nada batendo, nem solta amassado ou quebrado, que são os mais comumente encontrados, entrei e fomos. Em Santa Luzia o Taxi me deixou no ponto onde poderia pegar outro carro para Alto Alegre. Demorou uns quinze minutos para chegar a van, entrei e fomos. Primeira aventura. Muito, muito, muito buraco na estrada. Por vezes havia trechos de duzentos trezentos metros de estrada de chão e, todos os buracos cheios de água, até algumas lagoinhas no meio da estrada. Além disso, são muitas, muitas, muitas curvas muito, muito, muito fechadas. Cheguei em Alto Alegre por volta de dez da manhã com o fígado encostando no cérebro depois de tanto sacolejo e curva.
Sem perder tempo, me informei sobre a localização da escola. Sudário Brilhante o nome dela. Preparei minha cara de coloninho intelectualizado e fui até a direção, me apresentei e consegui convencer o diretor para fazer a palestra às duas da tarde. Entre chegar à cidade e sair da escola com a palestra agendada demorou uns quinze minutos, ou seja, dez e quinze da manhã estava de varde, com muitos nadas para fazer até as duas da tarde. E estava um calor de fazer cair pêlo de cusco. Caminhei até a margem do rio Pindaré, pensando em caminhar um cadinho na praia, achar uma sombra e sentar. Lembrava que em 2012, quando fui lá, tinha uma praia grandinha... decepção. Nem um fiozinho de praia, tudo alagado, o rio muito, muito, muito cheio. Nenhuma sombra. Voltei até a praça que tem várias árvores bem frondosas, uma sombra boa e bancos, cadeiras fixas com mesinhas com tabuleiros de xadrez. Havia uma mesa vazia, uma senhora ali perto vendia café, sentei. A praça estava cheia de gente, pois é ponto de chegada e saída dos mais diferentes tipos de transporte, taxi, van, microônibus e, é claro, muito e muito pau-de-arara. Vez ou outra alguém sentava nas cadeiras da mesma mesa, um ou outro tomava coragem e puxava assunto. Por vezes era eu a puxar conversa, enfim, fiz um “Marcos Schuh Recebe” na praça central de Alto Alegre do Pindaré. Expliquei a origem do meu sotaque uma 928 vezes, uns 815 não acreditaram na minha história, uns 714 acreditavam piamente que eu trabalhava para a Vale e me perguntavam sobre trens, minérios, minas, jazidas... Quando dei por consciência já era 13:30 e fui para a escola, sem almoço. Cheguei, o diretor muito gente boa me recebeu, me apresentou para os professores e, me informou que haviam encaixado a palestra na aula de história do nono ano que começaria às 14:30.Tranquilo, ótimo, uma turma de 35 alunos. Esperei e, no horário previsto fui conduzido para a sala, instalamos os trambolhos todos e, comecei meu falatório. Numas alturas da conversa, pedi para o professor que controlasse meu tempo e me avisasse uns cinco minutos antes do término para que pudesse finalizar o assunto. Foi quando ele me informou que faltavam vinte minutos para o intervalo, mas que eu poderia retornar depois do intervalo pois que eram duas as aulas de história.
No intervalo nem saí da sala porque o professor e alguns mais interessados ficaram na sala e ficamos conversando. Os alunos retornaram e continuamos. Quando falei “então é isso pessoal”, terminou a aula. Ou seja, usei as duas aulas inteirinhas. Recolhi minhas tralhas, me despedi, passei na direção pegar a “declaração” assinada e carimbada de que fiz a palestra e fui para a praça para pegar transporte. Nuvens negras no céu, pingos de chuva começando a cair. Cheguei na praça eram 16:30 e ela estava assustadoramente vazia. Nenhum carro, nenhuma van, nenhum pau-de-arara, nenhuma vendedora de café nem outra pessoa. Fiquei parado uns cinco minutos e resolvi me informar com as pessoas das lojas do outro lado da rua. Triste informação, os carros só faziam transporte até as 16 horas. Outro me disse que eu não conseguiria carro nem que pagasse muito pois as pessoas se recusavam a trafegar naquele trecho depois de escurecer devido as condições da estrada. Pensei “toma vagabundo!!! Ficou horas ali de trelelê e não perguntou sobre a volta, agora vai ter que ficar aqui, sem roupa, naquele hotel que desprezaste!!!” Nisso chegou um rapaz numa motinha e entrou na conversa, pediu para onde estava indo e, me veio uma luz assim “Não vou ficar” e perguntei se não havia alguém que me levasse de moto até Santa Luzia. O motoqueiro já deu um grito para outro que estava passando que, segundo disseram “era de confiança” mas ele já tinha compromisso. Mas mesmo assim, indicou outro rapaz que era igualmente “de confiança” e que ficava meia quadra dali. Fui. Achei o rapaz, e ele topou me levar, negociamos um preço e saímos.
Detalhes.
Detalhe número um: são cem quilômetros com a estrada naquelas condições já descritas.
Detalhe número dois: Não tinha capacete.
Detalhe número três: Eu estava de sandália.
Detalhe número quatro: a chuva estava aumentando.
Bóra. Segunda aventura começou assim: o motoqueiro passou por uma passarela de pedestres, estreita, que passa por cima dos trilhos da Carajás. Foi quando me lembrei de conselho de amigo meu para andar em garupa de moto: “encoxa o motoqueiro e não trava o corpo, deixa a moto te levar”. Céu negro, raios e raios, chicotes de Iansã dançando nos céus. Andamos uns dez quilômetros e os pingos de chuva se transformaram num aguaceiro. Chuva torrencial, raios. Paramos debaixo do telhado de um bar abandonado da beira da estrada. Esperamos uns quinze minutos, quando a chuva amainou seguimos. Já estava naquela hora de lusco-fusco, onde as coisas são difusas, os olhos em transição do dia para a noite.
Moto grande, possante, a média foi de oitenta a 100kms/h, por poças d’água, lagoinhas em meio a estrada, buracos, muitos, muitos, muitos buracos e, muitas, muitas, muitas curvas bem fechadas num sobe e desce constante. Só nas deitadinhas de moto e nas mudanças de pista pra desviar buraco. Eu só imaginava se numa dessas deitadinhas a gente acertasse um buraco ou, se numa das mudanças de pista viesse carro ou, se depois de uma curva houvesse um bando de burros na pista. Esse é outro detalhe muito comum, principalmente nesse trecho, bandos de burros e jegues andando na pista, pastando nas margens, soltos. Mas tranqüilo não é? Aventura é aventura. E raios e raios e começando escurar. Teve lugar que havia uma sequência de buracos e só um labirinto de asfalto no meio e a motinha ali, a toda. Eu olhava e pensava, “ele vai conseguir desviar todos, ele vai conseguir desvias todos...”. E ele conseguia, não sei como.
Por aqui é muito comum ter plaquinhas evangélicas com trechos bíblicos ou frases apocalípticas presas em postes de luz de beira de estrada. Teve uma curva, bem fechada e logo depois uma seqüência muito grande de buracos. Quando passamos todos eles vi uma plaquinha dessas num poste com o dizer: “Se não for com deus, nem tente”.
Nunca pensei que doesse tanto andar na garupa de uma moto por cem quilômetros. Meus ombros começaram a doer. Minha coluna começou a doer. Minha bunda começou a doer. Minhas pernas começaram a doer. Meus joelhos começaram a doer. Meus tornozelos começaram a doer. Meus pés com as sandalinhas encharcadas e cheias de areia começaram a doer. E raio, e raios e raios num céu cada vez mais negro e eu pedindo para Iansã segurar mais um pouco. Quando faltavam uns cinco kms para chegar começaram a cair uns pingos bem graúdos. Com a velocidade da moto, cada pingo no rosto e no pescoço era uma ferroada. Mas me agarrei com São Chiquinho e, ao invés de lastimar a falta de capacete, agradeci por ter óculos para proteger um pouco.
Enfim, chegamos em Santa Luzia, o motoqueiro me levou até o ponto de “taxi alternativo”. Já eram sete da noite. Só tinha um carro no ponto. Ninguém por perto.
Quando o motoqueiro parou perto do carro, saiu um senhor do bar do outro lado da rua chamando “Santa Inês?” Só fiz um sinal de positivo, desci, paguei o motoqueiro e, o senhor chegou perto e falou “vambora, quase que o senhor não me pega mais aqui, estou voltando pra casa e só dei um tempinho para ver se aparecia mais algum passageiro”. Era o último carro, chegasse um pouco depois, ficaria preso em Santa Luzia, que não seria muito diferente que ficar preso em Alto Alegre do Pindaré. Entramos no carro e viemos para Santa Inês, só paramos em meio ao caminho para carregar mais um passageiro retardatário.
Cheguei ao hotel quase me arrastando. Subindo as escadas, não sabia o que faria primeiro, se beberia água, se tomaria banho, se deitaria, se mijaria ou cagaria. Tudo era premente, pois desde que entrei na sala de aula até chegar ao hotel não deu para fazer nada dessas coisas.
Quando entrei no quarto e vi tudo arrumadinho, limpinho, caiu sobre mim um enorme alívio e, não pude conter o riso com a forma que a camareira arrumou minha cama, tudo lisinho, dobradinho e meu travesseiro de ursinho de pé, escorado num travesseiro maior.