quinta-feira, 24 de março de 2011

Para a Quinta

Quinta

Ontem o dia não teve hora...
como se fosse uma só coisa,
como um olhar de dois,
como o período entre o dia e a noite,
quando vemos com visão outra,
com vista de transição.
Mas isso foi só por um dia,
Hoje,
as horas voltaram.

terça-feira, 22 de março de 2011

Para o intróito

Intróito

O céu escuro pende a noite. Sei de mim agora pedaço e meio. Em fontes inseguras bebeu Jacó quando proferiu a mim palavras dissonantes. E copiávamos. Agora frio pende o braço em mão que não mais. Insensível defeito da criação.
Quarenta crianças passaram diante de mim. Saíram das folhas com três professoras. Todas me disseram oi. Foram quarenta e três ois em sequência. Depois sumiram nas folhas. Fiquei devendo alguns ois.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Para o nascer

Por nascer

Foi assim. Começou no canto da unha do dedão do pé esquerdo, tarde da manhã de uma sexta feira chuvosa. Uma fisgada, alfinetada, rasgada, acompanhada de outras tantas “adas”. Todas agudas, pontiagudas e tantas outras “udas”. Depois, calor, dor, estupor.
O segundo sinal foi salivação exacerbada, sudorese noturna, calafrios, pés colando. Depois só consegui sentir novamente quando o casulo se rompeu.

domingo, 20 de março de 2011

sábado, 19 de março de 2011

Para o sexto dia

Sexto dia

E eram três,
O pano
A pena
e você
Como três se desfizeram em suor, vôo e sangue
Mas todos sobrevivem apesar do peso de três mais três

sexta-feira, 18 de março de 2011

Para o quinto dia

Quinto dia

Tudo que está pertence ao meio e nada do meio pertence a ti.
Sonhos de ontem se desfazem nos pesadelos de hoje.
Meu passado condenando teu presente,
Teu presente condenando meu passado.
Assim, improdutivo se tornou o olhar com que me beijavas,
Como improdutiva se tornou a boca com que me olhavas.
E então, no reflexo do espelho, abracei tua voz de fumaça e dormi.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Para o quarto dia

Quarto dia

Seres de protocolos,
Nos colos,
Nos pés,
Nas palmas,
Nos braços,
Nas orelhas,
Nos olhos,
Nas coxas,
Nos tornozelos
Nas raízes,
Com força bruta
E desses abjetos de nossa objetividade, como loucos, com as mãos, buscaremos formas amputadas de nossos corpos, afastadas de nossos travesseiros...
E seja lá como for, seremos sempre condenados pelos nossos não atos, nos corredores das casas, à noite.

domingo, 13 de março de 2011

Para o terceiro dia


Guia - Lucena - PB

Terceiro dia

Deságüem em mim águas de por acaso. Como fôra de tempos meus... como fôra em tempos outros, dados de mais finitude, de mais horizontes próximos. De maiores pequenezas. Não essa amplidão... Essas pequenas imensidões cansam a vista, entorpecem os sentidos de urbanidade, despertam em nós instintos de selva, instintos de águas, nos transformam em entidades errantes.

sábado, 12 de março de 2011

Para o intermédio

Intermédio

E os dois eram ali e, estavam ali. Como que imbuídos de amarga consciência da existência, propagavam fórmulas de tempo e de constância.
No cio das horas, limitavam sua vida a trabalhos e dores, o que, ao final, no mesmo se resume.
Neste plágio de vida, sua única certeza era a de nada novo poder produzir, de nada diferente poder fazer.
Assim sendo, senzalaram seus corpos na névoa que encobria suas almas. E como césares, incendiaram cidades e pronunciaram palavras assassinas.

Para o segundo dia

Segundo dia

Crescem em mim coisas de não desejo.
Mas são tão pequenas, tão tenras, tão simples que chego a não me importar.
Agarram se a mim como criança a mão de pai
E crescem tão rápidos, tão exuberantes,
Logo de rubro se enfeitam e visitas começam a receber, mas eu também não me importo, pois que de mim sei que não se afastarão.
Depois, como em mim, vêem crescer em si coisas de não desejo.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Para o começo

Começo


 Encontrava-se agora estirado. Abandonado de si. No sol de um dia e seu seguinte.
Vendo noites, todas inteiras, intactas, intocadas, sem mácula, se alinharem no céu de final de tarde. Qual delas escolher? Nenhuma? Outra?
 Ditosos são teus atos espontâneos, geram em si virtudes que nunca lhe couberam.  Essas ânsias de vazios que o perseguem talvez também lhe dêem esse ar de graça, de ser gentil para comigo.
 Dá traça as bocas que o expuseram. Escolhe verdes louros de cada erro registrado, de cada falha computada.  A vida contabilizada. Ativo. Passivo. Caixa.  Arquivos mortos que se alastram por um corpo que nunca foi sequer sombra do que deveria.
 Vagarosamente tira anel por anel. Um de cada dedo. Os dedos longos e mãos grandes que deslizaram por muitos ombros em direção a lugares mais sensíveis. Olhou atentamente cada dedo. Cada unha. Se perdeu em pensamentos das possíveis marcas que cada uma daquelas unhas produzira. Infinitas combinações de possibilidades. Procura por todo arrastar das horas e estava ali. Todas as horas. Em sua não repetição incontável. Paralelas. O lado de fora, no entanto, estava oco, diferente do que havia sido dito quando para ali fora mandado. Voltar? E se o interior for ilusório. Se ali habitarem monstros ao invés de homens?”
Se correntes frias carregassem um corpo por léguas e depois, o depositassem suave, no fundo de um lugar em si, desistirias de pensamentos tão graves, tão sérios?
 Então do alto viu. Lá, de onde acertava seu alcance. E formou-se a névoa de algo que em si quisera. Então amanheceu e o corpo se ressentiu da noite seguinte.