| São Geraldo do Araguaia |
O dia hoje, dois de junho do
nosso senhor de 2014, foi cedo iniciado. Café só às seis e trinta. Quinze para
as seis da manhã estava eu, com minha térmica em mãos, com cara de coloninho,
na porta da copa do hotel, pedindo, encarecidamente, que a copeira passasse um
café. Generosamente e prontamente fui atendido.
O gringo pediu né!!? E ele gosta
mais escuro e mais amargoso... Aqui querido, prova pra ver se está bom assim...
Sim, me chamam de querido aqui. Mas não é aquele querido falso tipo queriiiido.
Coisa bem corriqueira.
Os homens me tratam por chefe,
chefinho, meu patrão, meu patrãozinho e, “dão um grau” nas coisas. Deixa dar um
grau nessa mesa antes de você sentar; deixa dar um grau nesse banco; vou pedir
pra moça dar um grau no seu quarto... E claro, sou Senhor para todos, do mais
novo ao mais velho. Mal lembro a última vez em que alguém se referiu a mim como
você. Tu então, sem chance.
Uma térmica de café no bucho, umas
dez idas ao banheiro e, mochilas nas costas, chapéu, óculos. Uma pernada de
umas seis quadras até a rodoviária. Saída de Araguaína com destino a São
Geraldo do Araguaia, no Pará. Três horas de viagem com um microônibus, sem
banheiro. Estrada esburacada, aquele ônibus sacudia, tremia, acelerava, freava
de vereda, desviava buraco, acertava buraco... Aquela térmica de café começou descer, e começou a encher a bexiga, e aquela bexiga querendo derramar...
Geralmente, quando é trajeto longo, as vans e microônibus tem pontos de apoio
no caminho, onde eles param para os passageiros fazerem uso de banheiro, pegar
água. Dessa vez nada. E eu ali, fazendo de todo o possível para não pensar em mijar. Olhava a paisagem e pensava, olha que bonito, paisagem, árvore... árvore é legal para escorar e dar um mijão... Não mexia nem um músculo. Pensa, paisagem, paisagem bonita, olha aquela serra no horizonte... E aquele infinito de estrada, aquela imensidão de
nada. Ônibus cheio. Outros passageiros começaram a expressar sua necessidade de
alívio, pensei bem, pelo menos não sou o único... E o motorista nem aí. Não, só
em Xambioá.
Quando finalmente vi o Araguaia,
já uns dois quilômetros antes de nele chegar, foi me dando um alívio nos
pensamentos, mas o negócio tava feio. Quando parou no porto desci e fui meio
vesgo para o lado dos banheiros, cheguei perto já fazendo passinhos curtos pra
segurar... Banheiros trancados. Tinha que pegar a chave num quiosque, me disse uma senhora. O porto
cheio de caminhão e gente. Vamos lá. Já suando de precisão, cheguei no
quiosque, pedi a chave meio espavorido... “Tém não que a faxineira ta limpano...”
Não tinha mais como, dei uma
chegadinha atrás de um caminhão que tava do lado do quiosque e foi ali, no meio
da rua mesmo, os outros passageiros sei o que fizeram não. Ou era ali, ou nas calças. Mas gringo pode. Foi daquelas de sair
sorrindo de alívio.
| Xambioá/TO vista de São Geraldo/PA |
Balsa, caminhão, travessia.
Aquela balsa estava literalmente fervendo, não dava nem para sentar nos bancos, de ferro, ou se escorar nos corrimões de segurança, de ferro. Sabe quando dá para ver o calor emanando do ferro? Pois é. Logo depois da
travessia já avistei um hotel na beira da estrada que parecia mais ajeitadinho
e pedi para parar o busão, desci e fui me instalar. O hotel fica no porto, a
uns dois quilômetros do centro.
Duas da tarde, mochilinha nas
costas e bóra trabalhar. Perguntei no hotel sobre a secretaria de cultura e
ninguém soube informar onde funcionava. Prefeitura, então. Informaram que era
longe, então, fui até a estrada e peguei um moto-taxi, um sol de verter lágrima
mesmo com óculos escuros. Cheguei na prefeitura, passei por três setores para
descobrir onde ficava a Secretaria municipal de cultura e, fui descobrir que
ela funcionava no prédio do conselho tutelar, bem em frente ao hotel. Era só
atravessar a rua. Bóra voltar lá então, atacar moto-taxi na rua e voltar. Ainda
bem que é craudiado de motoqueiro por cá. Tem lugar que até a moto é
padronizada, de cor amarela. E, em praticamente todas, os taxistas usam colete
laranja. Viu um colete laranja pode levantar a mão que ele para.
Cheguei no conselho tutelar, tudo
fechado, ninguém na recepção. Tinha três portas. Bati na primeira, nada. Bati
na segunda, nada. Bati na terceira e alguém disse entre. Estava lá, o
secretário de cultura, sozinho, numa sala só com climatizador, uma escrivaninha,
uma estante de metal com uns papéis e duas cadeiras. Só. A secretaria toda
estava ali.
Conversando com o secretário, não
lembro por que, ele mencionou o município de Piçarra que fica entre São Geraldo
e Eldorado dos Carajás. Fiquei encucado. Na minha imagem mental do mapa, eu só
faria São Geraldo e Eldorado ao sul (sudoeste) de Marabá, o restante das
cidades paraenses abrangidas ficavam, em meu pensar, ao norte de Marabá. Fui
conferir no mapa e não é que tenho que fazer Piçarras... Se o Chiquinho (que é
um Chicão) não tivesse mencionado, eu teria passado direto e, provavelmente só
me daria conta depois que chegasse a Marabá... e é um bom trecho que teria que
voltar... Mas graças ao secretário, com nome de meu santo de devoção, fui salvo
de tal transtorno.
Amanhã vai ser dia de produzir e
escavar fotografias. Secretaria sequer computador tinha... Assessoria de
comunicação, não tem. Um dos locais a visitar será a sede do Parque Nacional da
Serra das Andorinhas que fica aqui no centro. Soube que no parque há muitas
cavernas e, uma delas é chamada de Igreja de Pedra. Há uma tradição de devoção
ao Divino que acontece lá. Na semana de pentecostes os romeiros sobem a serra e
ficam acampados nas cavernas durante nove dias e nove noites, fazendo
penitências e rezando na igreja de pedra. Essa, infelizmente, não vou poder visitar
pessoalmente, pois fica longinho da cidade. Lugares de Guerrilha do Araguaia a
serra já teve nome de Serra dos Martírios. Mas depois os militares mudaram para
Serra das Andorinhas, que era mais bonitinho que algo que lembrava a chacina
dos guerrilheiros naqueles arredores.
Será que tem visagem que ronda
aquelas cavernas? Fantasma de defunto morto talvez? Só mesmo em grupo grande
pra subir lá e dormir nove noites naquelas cavernas, sozinho, de noite, sei se
ia lá não...
Além disso, olha só o que tenho
que passar, vou ter que procurar o gerente do banco do Brasil, eu que amo
Bancos a ponto de sequer conhecer o gerente da minha conta, para conseguir
fotos de uma das festas mais tradicionais da cidade: A festa do Cari, que é um
peixe semelhante ao nosso cascudo, que eles tem por hábito assar inteiro, na
brasa, inclusive com os intestinos, que é uma bolinha de nada e, sem nenhum
tempero. Quando assado, a pele quebra, como uma casca. O peixe é aberto, os
intestinos tirados e fica só uma carne extremamente branca com as vértebras e
sem espinhos. E o tempero não faz nenhuma falta. Durante a festa, todos os
pratos são preparados com a carne do referido peixe e, só o gerente do Banco,
que é um dos organizadores, tem registros fotográficos. Pelo menos foi assim
que mo disseram.
Final da tarde, voltando para o
hotel, fiz uma via sacra pelas bodeguinhas do cais em busca de café. Estava
seco por um. Nada. Só coisas geladas. Na última bodega que passei tinha pó de
café para vender. Comprei um pacotinho pequeno, já preparando minha cara de
coloninho para pedir que passassem uma térmica para mim no hotel. Cheguei, pedi
se podiam coar o café. Com o sim imediato, coloquei o pacotinho de café em cima
do balcão e subi pegar a térmica. Quando voltei a recepcionista estava com o
pacotinho de café na mão, me olhou com cara de espanto e disse “ mas moço, você
foi comprar café?!!! Era só pedir que eu fazia com café daqui...” Enfim, ela
queria que eu pegasse o café de volta... Tive que dar uma boa justificativa
dizendo que bebia muuuito café e que ela conseguiria gastar todo pacote até
amanhã, pois percebi que ela estava ofendida com o fato de eu ter comprado um
pacote de café, ainda mais que eu ficaria apenas um dia. E oferecer café, por
cá, é mais comum que oferecer água. Se bem que nessas histórias de oferecer
água também já fico atento, pois há aqueles que se ofendem quando você recusa
um copo d’água... Quando oferecem já alcançando o copo, ou trazem uma jarra com
um copo num prato, não recuse em hipótese alguma. Se não quiseres fazer um
inimigo, pegue, agradeça e beba.
Além de passar o café, a
recepcionista traz a térmica até o quarto. Já é a terceira em três horas.
Quando esvazia, levo a térmica e ela devolve cheia. Gringo pode.
Ao final da tarde caminhei até o
centro que antes só havia visto na passagem de moto e pelo que vi não podia ter
feito melhor escolha do meu hotel de posto de combustível. Meu quarto é, supostamente, de solteiro. Tem
três camas de solteiro, com um bom espaço entre as camas e mais um pedação que
da para fazer um baile, tem até chuveiro quente e, é absolutamente silencioso.
Lá fora os caminhões continuam indo e vindo, atravessando as fronteiras dos estados. Tem uns novecentos estacionados no posto. Meu quarto fica nos fundos, com janela para o mato. Só escuto os caminhões quando desço. A estrada que passa do lado do hotel, a da saída da balsa, tem uns trezentos metros de estrada de chão, imagino que as chuvas e os caminhões tenham arrancado o asfalto. É poeira que não acaba mais. Fina, grudenta, que entra pelos poros, se mistura ao suor e vira barro. À tarde passou um caminhão pipa, jogando água na poeira. No tempo de uma hora, a poeira virou lama e virou poeira de novo.
Quando quiserem fazer turismo em São Geraldo do Araguaia, venham, a temporada
está começando, Araguaia ta baixando, as ilhas começando aparecer, os bancos de
areia se formando. Deixo tudo para vocês, pois como estou à trabalho não posso
me entregar a esses prazeres supérfluos como caminhar pela beira do Araguaia
num final de tarde de início de verão...
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