quinta-feira, 10 de abril de 2014

Trabalho do lado de cá

Agenda pública: a quem de interesse.

Depois de três dias tentando, consegui encontrar a secretária de educação. Na primeira tentativa consegui chegar até a diretora de ensino, expliquei para ela o que era e deixei o projeto. Ela prometeu retorno até o final da tarde de segunda. Nada. O atendimento ao público é só no período da manhã e tarde serviço interno.
Na terça foi minha viagem emocionante a Alto Alegre que me tomou o dia todo. 
A Secretaria da Educação funciona em uma casa enorme. Tem um muro e, na entrada um guarda. Passando pelo guarda, na entrada da casa fica a recepção e, uma porta fechada. Você se identifica, espera e, quando a pessoa que procuras chega, te é permitido adentrar na dita porta fechada. Atrás da porta um corredor, com salas fechadas e sem identificação do que ali funciona. Na metade do corredor uma escada que leva ao primeiro andar. No topo da escada uma sala grande que é usada como auditório e sala de espera, a sala da secretária executiva cuja porta fica aberta e, a sala da secretária de educação. Sempre fechada.
Ontem fiz a segunda tentativa. Na recepção me identifiquei e pedi para falar com a diretora de ensino, me pediram para aguardar pois a mesma estava tomando café da manhã. Sim. Aqui os funcionários públicos, todos eles, tomam café da manhã no local de trabalho. Em todas as cidades. Sentei, esperei.
Uns dez minutos depois a diretora passou pela recepção, rapidinho, me viu e falou "Pode aguardar que já deixei o projeto com a secretária e ela está vendo", e se foi, sumindo por detrás da porta. Espero, espero, espero. 
Duas horas depois tomei toda calma minha e expliquei a situação para a recepcionista e esta, sumiu por detrás de uma porta para verificar o andamento da minha questão. Esperei.
Uns quinze minutos depois ela volta com o veredicto:
 A "diretora de ensino" havia saído... por porta dos fundos imagino, se é que saiu mesmo... e, que meu projeto ainda nem havia chego até a secretária de educação, ainda estava com a secretária executiva da mesma e, que eu não seria atendido naquele dia pois a secretária estava em reunião. "Tem como o senhor voltar amanhã?"
Respirei fundo, invoquei todos os anjos e santos, conjurei demônios silenciosamente. Olhei bem nos óinhos amendoados dela e só perguntei: "e vocês me deixaram duas horas esperando para me dizer isso?" Devo ter feito uma cara pavorosamente assustadora, porque o sangue todinho da muié se escapuliu. Ela ficou pálida. Amenizei, mas só um cadinho, agradeci a ela, disse que voltaria hoje e dei tchau..
Deu tempo de almoçar, banhar rapidinho, me fardar e ir caminhando para a escola onde havia agendado palestra, aqui em Santa Inês mesmo. Uma escola de bairro, toda detonada. A salinha do diretor é minúscula. Risomar o nome dele, do diretor. Bonito nome não? Junta duas coisas muito importantes para a vida.
Novamente, duas aulas da disciplina de história com uma turma de trinta alunos do nono ano. O diretor e a professora me levaram até a sala, me apresentaram e foram providenciar o projetor. A sala, apesar do piso quebrado e das paredes com infiltração era, podemos dizer, ampla. Os alunos estavam divididos em três grupos. Dois agrupamentos na frente, um do lado direito, outro do lado esquerdo, um vão no meio e, bem lá no fundo, a galera do fundão, que é sempre a galera do fundão, como em qualquer outro lugar. Agrupamentos formados por afinidade, imagino. Foi quando reparei que a maioria das cadeiras não tinha o apoio para o caderno, não tinha carteiras. Quem chegava primeiro pegava as melhores cadeiras. O restante escrevia com o caderno apoiado no colo. Enquanto a professora não chegava, comecei desfiar minha ladainha. Quando o projetor chegou, paramos uns minutos, instalamos tudinho. Enquanto isso ficou um burburinho de convesê na sala. Instalado, só falei “vamos voltar pessoal?” e o silêncio se fez. Nisso um menino da galera do fundão pegou sua cadeira e veio um pouco mais para frente, e outro também veio, depois outra, depois outra, depois outro. E, sim, todos vieram. E, foram-se as duas aulas. Se algum dia, (deus me livre) por mais absoluta falta de opções, eu me ver obrigado a entrar em uma sala de aula como professor, vou ser professor em cidade pequena por esses lados.
Fui dormir pensando em acordar por volta de seis horas. Gosto de ter um tempo para acordar direito antes de trabalhar. E não é que me perdi nas horas? Não coloquei despertador a despertar e acordei já eram 7:30. E eu fico muito, muito puto comigo mesmo quando acordo mais tarde que o planejado. Pulei da cama, vesti a primeira roupa que achei, desci correndo com minha garrafinha térmica até a sala do café, enchi, voltei correndinho, tomei um cigarro, fumei uma xícara de café enquanto enfiava caderno, caneta e tralha e tal na bolsa, banhei correndinho, me fardei e saí todo aparvalhado rumo à secretaria, ainda me xingando por acordar tarde. Devia estar com uma cara muito boa, de anjo, de ser etéreo que de sorrir levita. Cheguei passei pelo guarda, cumprimentei, cheguei na recepção... foi só dizer “bom dia” e a porta fechada se abriu no instante. Subi a escadaria, entrei na sala da secretária executiva, disse “bom dia, eu estou aqui para...” “ Ah sim Seu Marcos, o senhor aguarda só um instante que ela vai lhe atender”. Fui até a sala de espera, tinha uns vinte que chegaram antes de mim, todos esperando para falar com a secretária. Uns dez minutos depois, a secretária executiva me chamou para a sala dela, me ofereceu uma cadeira em frente a sala da porta fechada e disse, “quando saírem dois rapazes por ali, você entra”. Sentei. Nisso ouvi lá fora um dos vinte reclamando por terem me chamado primeiro e, ouvi a explicação da secretária “é a “fulana” que decide e chama o que é mais urgente”. Pensei: “opa, agora meu caso está nas urgências?!!” Ótimo.

Quando os rapazes saíram, entrei, nos apresentamos, a secretária de educação confessou não ter conseguido tempo para ler meu projeto. Expliquei para ela em poucas palavras, enfim, que é de graça e que a única responsabilidade deles é com a parte operacional. Em questão de dez minutos definimos data, local, horário, responsabilidade de cada um e eu saí. É tão simples quando se consegue conversar com a pessoa que decide as coisas. O difícil sempre é passar por todos os labirintos até chegar a pessoa certa. Os vinte da fila até fizeram cara de espanto quando me viram sair de lá tão rápido. Agendado para segunda e terça feira. Amanhã vou encarar Bela Vista do Maranhão. Essa é pertinho daqui, não periga de ficar preso lá.

Um comentário:

  1. É porque um sorriso abre muitas portas... E uma carranca de alemão contrariado abre muitas mais ;)

    ResponderExcluir