terça-feira, 15 de abril de 2014

Agenda de ontem e hoje: Registros.


Então, segunda feira começou assim:
Fui até a secretaria de educação, aquela, já descrita anteriormente. A oficina aconteceria naquele auditório, no alto da escada, que também serve de sala de espera. Além da sala da secretária executiva e da secretária da educação, há mais três salas onde trabalham técnicos da secretaria. Cheguei dez para as oito da manhã. Aquele frio na barriga de sempre. Será que conseguiram organizar? Será que virá algum professor? Como vou começar? O que vou fazer durante dezesseis horas? E essas coisas tolas que nos ocorrem nos pensamentos enquanto esperamos coisas de começar.
As portas que antes custaram tanto para abrir pareceram ter sensor de movimento de tão rápido que se abriram. Subi a escada. Liguei equipamento. Uma das técnicas da secretaria foi incumbida de me assessorar. Térmica de café fresco, água. Início marcado para oito horas. Oito e dez chegaram duas pessoas. Esperamos. Oito  e 20, chegaram mais 29. Comecei.
Quando vi tava começando juntar gente no fundo da sala, pessoas que estavam na parte de “sala de espera” começaram chegar mais perto, técnicos saindo das salas para ver o que estava acontecendo.
 À tarde não tem atendimento ao público na secretaria, sem gente transitando, ficaram os 31. Fiz a atividade da tarde que era: cada um contar um pouco de sua história pessoal. Sugeri começar e, como esperado, concordaram que fosse eu.  Me ative, basicamente, a apresentação de um currículo, pois sabia que assim, todos passariam a adotar o mesmo roteiro. Assim como sabia que a história profissional seria, estava apostando nisso, das memórias as menos dolorosas.
Não estabeleci tempo. Cada um falava o que queria, mas precisava falar, qualquer coisa que fosse e, a condição de prestar atenção nas histórias que estavam sendo contadas. Caras assustadas, muitos(as) dizendo que não falariam.. Todas seguiram o roteiro da história profissional e posso afirmar que com certeza foi o caminho menos doído mas não menos sacrificoso. Maioria alfabetizada(o) por “professor particular”, esses de fazenda, de palmatória e tal. Pessoas jovens, de trinta, quarenta anos. Pessoas da roça que queriam muito estudar e, com todas as forças do universo sendo-lhes contrárias, conseguiram terminar “a quarta série”, com 14, 15 anos. Depois, ainda com as forças do universo sendo contra, conseguiram fazer o fundamental.  Depois casaram. Ainda contra as forças do universo, fizeram o ensino médio. Mas todas(os) trabalhavam como professores desde a conclusão da quarta série. Hoje, a maioria tem duas graduações feitas no campus da UEMA daqui. Volta e meia alguém desandava chorar. Memórias involuntárias, coisas que mentalmente haviam jurado, dois minutos antes, que não contariam. Memórias de pais, maridos/esposas, ex-maridos/esposas. Vozes embargadas, enfim, todos falaram. Terminamos eram cinco horas.
Nisso a secretária executiva se aproximou e pediu para dar um recado. Consenti. O recado “quem puder avisar seus colegas de escola que eles não foram convidados para a oficina porque só havia trinta vagas”. Estavam ligando querendo saber porque não foram convidados para a “aula de formação” que estava acontecendo na secretaria. Confirmei que só havia oferecido 30 vagas e, continuei, falei de história, de memória, de identidade cultural, relacioneis as histórias pessoais com a história do município, da região e bla, bla, bla, bla, bla quando vi, estavam todos os técnicos, em pé, na porta das salas, escutando. Terminei 17:40 e todos ficaram sentados, me olhando com cara de “acabou?”.
Hoje cheguei oito horas. Oito e quinze comecei, tinha umas vinte e cinco pessoas, outros foram chegando, chegando, chegando, chegando... Passei a lista de presença e continuei. Quando a lista voltou, olhei, quarenta e uma pessoas. Aqueles que no dia anterior ficaram ouvindo do fundo da sala, resolveram participar hoje. Segundo eles, não foram convidados, mas eram professores, passaram por ali no dia anterior, gostaram do que ouviram e resolveram vir. Assim.
Terminei 16:40, ainda com meu público de 41 pessoas. Avaliação até 17:10. Finalizado.Teve gente que me ofereceu casa, pouso, para quando quisesse vir para a região, convidando para festa de não sei que santo. Beijos, abraços, bênçãos e tudo mais. Preenchi os certificados, imprimi, assinei, deixei para a secretária assinar e carimbar os mesmos. Mais despedidas e bênçãos de secretárias, diretoras, técnicos, senhoras do café, recepcionistas, guarda.  Cheguei quase escurando.

A entidade que baixou, subiu novamente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário