Então,
segunda feira começou assim:
Fui até a
secretaria de educação, aquela, já descrita anteriormente. A oficina
aconteceria naquele auditório, no alto da escada, que também serve de sala de
espera. Além da sala da secretária executiva e da secretária da educação, há
mais três salas onde trabalham técnicos da secretaria. Cheguei dez para as oito
da manhã. Aquele frio na barriga de sempre. Será que conseguiram organizar?
Será que virá algum professor? Como vou começar? O que vou fazer durante
dezesseis horas? E essas coisas tolas que nos ocorrem nos pensamentos enquanto
esperamos coisas de começar.
As portas que
antes custaram tanto para abrir pareceram ter sensor de movimento de tão rápido
que se abriram. Subi a escada. Liguei equipamento. Uma das técnicas da
secretaria foi incumbida de me assessorar. Térmica de café fresco, água. Início
marcado para oito horas. Oito e dez chegaram duas pessoas. Esperamos. Oito e 20, chegaram mais 29. Comecei.
Quando vi
tava começando juntar gente no fundo da sala, pessoas que estavam na parte de “sala
de espera” começaram chegar mais perto, técnicos saindo das salas para ver o
que estava acontecendo.
À tarde não tem atendimento ao público na
secretaria, sem gente transitando, ficaram os 31. Fiz a atividade da tarde que
era: cada um contar um pouco de sua história pessoal. Sugeri começar e, como
esperado, concordaram que fosse eu. Me ative,
basicamente, a apresentação de um currículo, pois sabia que assim, todos
passariam a adotar o mesmo roteiro. Assim como sabia que a história
profissional seria, estava apostando nisso, das memórias as menos dolorosas.
Não
estabeleci tempo. Cada um falava o que queria, mas precisava falar, qualquer
coisa que fosse e, a condição de prestar atenção nas histórias que estavam
sendo contadas. Caras assustadas, muitos(as) dizendo que não falariam.. Todas
seguiram o roteiro da história profissional e posso afirmar que com certeza foi
o caminho menos doído mas não menos sacrificoso. Maioria alfabetizada(o) por “professor
particular”, esses de fazenda, de palmatória e tal. Pessoas jovens, de trinta,
quarenta anos. Pessoas da roça que queriam muito estudar e, com todas as forças
do universo sendo-lhes contrárias, conseguiram terminar “a quarta série”, com
14, 15 anos. Depois, ainda com as forças do universo sendo contra, conseguiram
fazer o fundamental. Depois casaram.
Ainda contra as forças do universo, fizeram o ensino médio. Mas todas(os)
trabalhavam como professores desde a conclusão da quarta série. Hoje, a maioria
tem duas graduações feitas no campus da UEMA daqui. Volta e meia alguém
desandava chorar. Memórias involuntárias, coisas que mentalmente haviam jurado,
dois minutos antes, que não contariam. Memórias de pais, maridos/esposas,
ex-maridos/esposas. Vozes embargadas, enfim, todos falaram. Terminamos eram
cinco horas.
Nisso a
secretária executiva se aproximou e pediu para dar um recado. Consenti. O
recado “quem puder avisar seus colegas de escola que eles não foram convidados
para a oficina porque só havia trinta vagas”. Estavam ligando querendo saber
porque não foram convidados para a “aula de formação” que estava acontecendo na
secretaria. Confirmei que só havia oferecido 30 vagas e, continuei, falei de
história, de memória, de identidade cultural, relacioneis as histórias pessoais
com a história do município, da região e bla, bla, bla, bla, bla quando vi,
estavam todos os técnicos, em pé, na porta das salas, escutando. Terminei 17:40
e todos ficaram sentados, me olhando com cara de “acabou?”.
Hoje cheguei
oito horas. Oito e quinze comecei, tinha umas vinte e cinco pessoas, outros
foram chegando, chegando, chegando, chegando... Passei a lista de presença e
continuei. Quando a lista voltou, olhei, quarenta e uma pessoas. Aqueles que no
dia anterior ficaram ouvindo do fundo da sala, resolveram participar hoje.
Segundo eles, não foram convidados, mas eram professores, passaram por ali no
dia anterior, gostaram do que ouviram e resolveram vir. Assim.
Terminei 16:40,
ainda com meu público de 41 pessoas. Avaliação até 17:10. Finalizado.Teve gente
que me ofereceu casa, pouso, para quando quisesse vir para a região, convidando
para festa de não sei que santo. Beijos, abraços, bênçãos e tudo mais. Preenchi
os certificados, imprimi, assinei, deixei para a secretária assinar e carimbar
os mesmos. Mais despedidas e bênçãos de secretárias, diretoras, técnicos,
senhoras do café, recepcionistas, guarda. Cheguei quase escurando.
A entidade
que baixou, subiu novamente.
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