quarta-feira, 9 de abril de 2014

Das vidas do lado de cá

Rio Pindaré
Agenda pública de ontem:
Acordo eu muito do cedinho, pois precisava ir de Santa Inês a Alto Alegre do Pindaré, dá uns 140, 150 quilômetros. Como já conhecia a cidade, sabendo que teria que me hospedar num quarto sem janela (só com uma pequena basculante no alto), chuveiro frio, cama mole, travesseiro duro, que não teria restaurante para jantar, etc, decidi que iria cedo, marcaria a palestra para a tarde do mesmo dia e, voltaria para Santa Inês. Levei só o equipamento.
De cara dei sorte, cheguei no ponto de Taxi e havia um carro já com três passageiros esperando mais um para completar a “carga”, saindo para Santa Luzia. Carro bom, nada batendo, nem solta amassado ou quebrado, que são os mais comumente encontrados, entrei e fomos. Em Santa Luzia o Taxi me deixou no ponto onde poderia pegar outro carro para Alto Alegre. Demorou uns quinze minutos para chegar a van, entrei e fomos. Primeira aventura. Muito, muito, muito buraco na estrada. Por vezes havia trechos de duzentos trezentos metros de estrada de chão e, todos os buracos cheios de água, até algumas lagoinhas no meio da estrada. Além disso, são muitas, muitas, muitas curvas muito, muito, muito fechadas. Cheguei em Alto Alegre por volta de dez da manhã com o fígado encostando no cérebro depois de tanto sacolejo e curva.
Sem perder tempo, me informei sobre a localização da escola. Sudário Brilhante o nome dela. Preparei minha cara de coloninho intelectualizado e fui até a direção, me apresentei e consegui convencer o diretor para fazer a palestra às duas da tarde. Entre chegar à cidade e sair da escola com a palestra agendada demorou uns quinze minutos, ou seja, dez e quinze da manhã estava de varde, com muitos nadas para fazer até as duas da tarde. E estava um calor de fazer cair pêlo de cusco. Caminhei até a margem do rio Pindaré, pensando em caminhar um cadinho na praia, achar uma sombra e sentar. Lembrava que em 2012, quando fui lá, tinha uma praia grandinha... decepção. Nem um fiozinho de praia, tudo alagado, o rio muito, muito, muito cheio. Nenhuma sombra. Voltei até a praça que tem várias árvores bem frondosas, uma sombra boa e bancos, cadeiras fixas com mesinhas com tabuleiros de xadrez. Havia uma mesa vazia, uma senhora ali perto vendia café, sentei. A praça estava cheia de gente, pois é ponto de chegada e saída dos mais diferentes tipos de transporte, taxi, van, microônibus e, é claro, muito e muito pau-de-arara. Vez ou outra alguém sentava nas cadeiras da mesma mesa, um ou outro tomava coragem e puxava assunto. Por vezes era eu a puxar conversa, enfim, fiz um “Marcos Schuh Recebe” na praça central de Alto Alegre do Pindaré. Expliquei a origem do meu sotaque uma 928 vezes, uns 815 não acreditaram na minha história, uns 714 acreditavam piamente que eu trabalhava para a Vale e me perguntavam sobre trens, minérios, minas, jazidas... Quando dei por consciência já era 13:30 e fui para a escola, sem almoço. Cheguei, o diretor muito gente boa me recebeu, me apresentou para os professores e, me informou que haviam encaixado a palestra na aula de história do nono ano que começaria às 14:30.Tranquilo, ótimo, uma turma de 35 alunos. Esperei e, no horário previsto fui conduzido para a sala, instalamos os trambolhos todos e, comecei meu falatório. Numas alturas da conversa, pedi para o professor que controlasse meu tempo e me avisasse uns cinco minutos antes do término para que pudesse finalizar o assunto. Foi quando ele me informou que faltavam vinte minutos para o intervalo, mas que eu poderia retornar depois do intervalo pois que eram duas as aulas de história.
No intervalo nem saí da sala porque o professor e alguns mais interessados ficaram na sala e ficamos conversando. Os alunos retornaram e continuamos. Quando falei “então é isso pessoal”, terminou a aula. Ou seja, usei as duas aulas inteirinhas. Recolhi minhas tralhas, me despedi, passei na direção pegar a “declaração” assinada e carimbada de que fiz a palestra e fui para a praça para pegar transporte. Nuvens negras no céu, pingos de chuva começando a cair. Cheguei na praça eram 16:30 e ela estava assustadoramente vazia. Nenhum carro, nenhuma van, nenhum pau-de-arara, nenhuma vendedora de café nem outra pessoa. Fiquei parado uns cinco minutos e resolvi me informar com as pessoas das lojas do outro lado da rua. Triste informação, os carros só faziam transporte até as 16 horas. Outro me disse que eu não conseguiria carro nem que pagasse muito pois as pessoas se recusavam a trafegar naquele trecho depois de escurecer devido as condições da estrada. Pensei “toma vagabundo!!! Ficou horas ali de trelelê e não perguntou sobre a volta, agora vai ter que ficar aqui, sem roupa, naquele hotel que desprezaste!!!” Nisso chegou um rapaz numa motinha e entrou na conversa, pediu para onde estava indo e, me veio uma luz assim “Não vou ficar” e perguntei se não havia alguém que me levasse de moto até Santa Luzia. O motoqueiro já deu um grito para outro que estava passando que, segundo disseram “era de confiança” mas ele já tinha compromisso. Mas mesmo assim, indicou outro rapaz que era igualmente “de confiança” e que ficava meia quadra dali. Fui. Achei o rapaz, e ele topou me levar, negociamos um preço e saímos.
Detalhes.
Detalhe número um: são cem quilômetros com a estrada naquelas condições já descritas.
Detalhe número dois: Não tinha capacete.
Detalhe número três: Eu estava de sandália.
Detalhe número quatro: a chuva estava aumentando.
Bóra. Segunda aventura começou assim: o motoqueiro passou por uma passarela de pedestres, estreita, que passa por cima dos trilhos da Carajás. Foi quando me lembrei de conselho de amigo meu para andar em garupa de moto: “encoxa o motoqueiro e não trava o corpo, deixa a moto te levar”. Céu negro, raios e raios, chicotes de Iansã dançando nos céus. Andamos uns dez quilômetros e os pingos de chuva se transformaram num aguaceiro. Chuva torrencial, raios. Paramos debaixo do telhado de um bar abandonado da beira da estrada. Esperamos uns quinze minutos, quando a chuva amainou seguimos. Já estava naquela hora de lusco-fusco, onde as coisas são difusas, os olhos em transição do dia para a noite.
Moto grande, possante, a média foi de oitenta a 100kms/h, por poças d’água, lagoinhas em meio a estrada, buracos, muitos, muitos, muitos buracos e, muitas, muitas, muitas curvas bem fechadas num sobe e desce constante. Só nas deitadinhas de moto e nas mudanças de pista pra desviar buraco. Eu só imaginava se numa dessas deitadinhas a gente acertasse um buraco ou, se numa das mudanças de pista viesse carro ou, se depois de uma curva houvesse um bando de burros na pista. Esse é outro detalhe muito comum, principalmente nesse trecho, bandos de burros e jegues andando na pista, pastando nas margens, soltos. Mas tranqüilo não é? Aventura é aventura. E raios e raios e começando escurar. Teve lugar que havia uma sequência de buracos e só um labirinto de asfalto no meio e a motinha ali, a toda. Eu olhava e pensava, “ele vai conseguir desviar todos, ele vai conseguir desvias todos...”. E ele conseguia, não sei como.
Por aqui é muito comum ter plaquinhas evangélicas com trechos bíblicos ou frases apocalípticas presas em postes de luz de beira de estrada. Teve uma curva, bem fechada e logo depois uma seqüência muito grande de buracos. Quando passamos todos eles vi uma plaquinha dessas num poste com o dizer: “Se não for com deus, nem tente”.
Nunca pensei que doesse tanto andar na garupa de uma moto por cem quilômetros. Meus ombros começaram a doer. Minha coluna começou a doer. Minha bunda começou a doer. Minhas pernas começaram a doer. Meus joelhos começaram a doer. Meus tornozelos começaram a doer. Meus pés com as sandalinhas encharcadas e cheias de areia começaram a doer. E raio, e raios e raios num céu cada vez mais negro e eu pedindo para Iansã segurar mais um pouco. Quando faltavam uns cinco kms para chegar começaram a cair uns pingos bem graúdos. Com a velocidade da moto, cada pingo no rosto e no pescoço era uma ferroada. Mas me agarrei com São Chiquinho e, ao invés de lastimar a falta de capacete, agradeci por ter óculos para proteger um pouco.
Enfim, chegamos em Santa Luzia, o motoqueiro me levou até o ponto de “taxi alternativo”. Já eram sete da noite. Só tinha um carro no ponto. Ninguém por perto.
Quando o motoqueiro parou perto do carro, saiu um senhor do bar do outro lado da rua chamando “Santa Inês?” Só fiz um sinal de positivo, desci, paguei o motoqueiro e, o senhor chegou perto e falou “vambora, quase que o senhor não me pega mais aqui, estou voltando pra casa e só dei um tempinho para ver se aparecia mais algum passageiro”. Era o último carro, chegasse um pouco depois, ficaria preso em Santa Luzia, que não seria muito diferente que ficar preso em Alto Alegre do Pindaré. Entramos no carro e viemos para Santa Inês, só paramos em meio ao caminho para carregar mais um passageiro retardatário.
Cheguei ao hotel quase me arrastando. Subindo as escadas, não sabia o que faria primeiro, se beberia água, se tomaria banho, se deitaria, se mijaria ou cagaria. Tudo era premente, pois desde que entrei na sala de aula até chegar ao hotel não deu para fazer nada dessas coisas.
Quando entrei no quarto e vi tudo arrumadinho, limpinho, caiu sobre mim um enorme alívio e, não pude conter o riso com a forma que a camareira arrumou minha cama, tudo lisinho, dobradinho e meu travesseiro de ursinho de pé, escorado num travesseiro maior.




2 comentários:

  1. Schuh, tuas narrações estão ficando cada vez melhores, falando em termos de construção do texto, suspense, os toques de humor. Teve um momento que tive que lembrar do spoiler de ontem (onde você divulgou que havia voltado pra Santa Inês), porque tudo me levava a crer que não, rsrs
    Pense seriamente num almanaque de cidades, guri! Todas apresentadas dessa perspectiva, claro ;)
    Abraços!
    Carol

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  2. Maravilhosa história kkkkkkkkkk. Eu me senti andando de moto.. eu e o Geverson rimos muitooo.

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